Escolas de São Paulo adotam metodologias alternativas e flexibilizam sala de aula

Escolas de São Paulo adotam metodologias alternativas e flexibilizam sala de aula

por Tania Pescarini


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Um grupo de escolas da rede municipal de São Paulo está determinado a diversificar suas práticas educativas. As mudanças são importantes: algumas escolas aboliram as paredes – físicas e organizacionais – que separam os alunos por faixa etária e os professores por disciplina; outras foram mais ousadas e adotaram a metodologia por projeto como modo de trabalho. Conheça três casos e confira como essas escolas entendem o currículo.

Em meio ao debate sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), algumas escolas públicas da rede municipal de ensino de São Paulo mostram que, ao menos até o momento, é possível conciliar as determinações curriculares do governo federal com a autonomia de diretores e professores das escolas. Profissionais das escolas Emef Capos Salles, Emef João Pinheiro e Emef Dom Duarte reuniram-se na Universidade de São Paulo (USP) com a pesquisadora Claudia Galian, especialista em currículo e alunos. As escolas têm trajetórias diversas e ao menos duas – Emef Duarte e Campos Salles – estão localizadas em bairros periféricos.

A Dom Duarte relata que as mudanças começaram em 2011 e foram baseadas na concepção de educação integral. A escola passou a oferecer uma série de projetos no contraturno, mas os educadores perceberam que havia pouca conexão entre esses projetos e o que ocorria em sala de aula, nas quais a maioria dos professores ainda escrevia a matéria na lousa. A organização pedagógica tradicional mostrou-se um desafio. O diretor, José Silvério, conta que ele e sua equipe visitaram diversas escolas em busca de inspiração: “Chegamos à conclusão de que era preciso romper com a fragmentação das aulas, e fizemos isso”. Hoje, o professor da cada disciplina permanece com os alunos durante 22 dias seguidos, das 7 horas da manhã ao meio-dia. O ano letivo é dividido em quatro áreas: Humanas, Exatas, Linguística e áreas integradas (Artes e Educação Física). Cada trimestre é dedicado a uma das três primeiras áreas e a área integrada funciona ao longo do ano, com projetos que interagem com as demais. A pedagogia por projeto também é importante, assim como a gestão democrática: “Fazemos assembleias nas quais os alunos podem propor temas que queiram estudar”, conta Silvério.

Já a Campos Salles estruturou suas mudanças na tríade “autonomia, responsabilidade e solidariedade”. A inspiração veio da Escola da Ponte, de Portugal. A escola paulistana trabalha com roteiros de estudo. Os alunos formam pequenos grupos e desenvolvem, com a ajuda do professor, roteiros de estudo. Com base neles, definem-se percursos de aprendizagem individual e em grupo. Os roteiros recebem também o apoio de oficinas, por exemplo, de Inglês com Música, produção de texto e reforço de Matemática. Dessa forma, acredita-se que o professor terá mais oportunidade de conhecer as dificuldades e as habilidades de cada aluno. Nesse caso, a gestão democrática também é importante: foi formada uma comissão de professores e alunos cujo objetivo é solucionar conflitos. A arquitetura é diferente, como explica a diretora Amélia: “Percebemos que o ambiente interfere no currículo e nas relações. Educação são relações, por isso mudamos a arquitetura da escola”. As provas foram substituídas por avaliações processuais.

Já a Emef João Pinheiro optou por uma mudança ainda mais radical: todos os professores são polivalentes, inclusive os do Ensino Fundamental II. A direção assegurou um dia da semana para todos os docentes se reunirem e ensinarem uns aos outros. Desse modo, o professor de História ensina o de Ciências, e assim por diante. A escola se organiza por projetos, todos interdisciplinares, e valoriza a gestão democrática.

 

Mudanças estruturais exigem cautela

A gestão democrática é amplamente amparada pela legislação brasileira: a Constituição de 1988 considera-a um dos princípios da educação brasileira. Além disso, ela está contemplada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e no Plano Nacional de Educação. Esse princípio conta com amplo apoio dos pesquisadores, gestores e profissionais da educação, pelo menos em tese. Na prática, ela se mostra um grande desafio. As escolas nesse caso parecem realmente abertas a abraçar o exercício da democracia no cotidiano, o que não é fácil. A iniciativa recebeu elogios de Claudia Gallian. A pesquisadora, no entanto, afirma que não é possível ignorar que a escola, como instituição, é permeada pelas relações de poder. Ela faz algumas ressalvas: “Não dá para prescindir completamente das disciplinas, pois elas têm maneiras diferentes de olhar para o mundo. Retirar as disciplinas também mexe com as relações de poder. Se o professor se sente esvaziado de poder e legitimidade, esse não é um projeto de todo mundo”. Ela ressalta ainda que é preciso manter uma discussão constante sobre o que ensinar na escola e sobre “os silêncios” no currículo.

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